Da arte
e tecnologia

07—17.05
Braga, PT

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Dia

07.05.2026

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14.05.2026

15.05.2026

16.05.2026

17.05.2026

Local

Forum Arte Braga

gnration

Mosteiro de Tibães

Muzeu

Online

Theatro Circo

Programação

“Os cárceres do possível são o cenário reiterado da servidão e rendição.”

Marina Garcés, 2025 [1]

 

Comecemos por uma constatação: nas últimas décadas, os exponenciais avanços tecnológicos reconfiguraram a arquitetura das relações de poder. Para esta ideia, e a partir de múltiplos campos disciplinares, converge o olhar incisivo de diversas figuras de relevo do pensamento contemporâneo. São disso exemplo a redefinição do conceito de soberania, pelo filósofo chinês Yuk Hui, a introdução da tese do capital-nuvem, pelo ex-ministro das finanças grego Yanis Varoufakis, o manifesto hacker da australiana McKenzie Wark, a produção ensaística e artística da alemã Hito Steyerl, as infraestruturas mediárquicas de poder, dissecadas pelo francês Yves Citton, ou a dimensão tecnopolítica presente nos trabalhos do português José Gil e do italiano Franco “Bifo” Berardi.

Para José Gil, esta reconfiguração do poder relaciona-se com a emergência de uma “supernatureza“, constituída por “máquinas inteligentes, cujo objetivo último é o controlo”, não apenas económico, político ou infraestrutural, mas também “do fluxo dos desejos e das ideias, da vida e da morte” [2].

É precisamente sobre Poder que versa a terceira edição do INDEX, bienal de arte e tecnologia, propondo uma reflexão alargada sobre as distintas formas como, nos nossos dias, este conceito é determinado por uma dimensão tecnológica.

Esta proposta é feita a partir do campo da Arte, enquanto prática constitutivamente política, que contempla os nossos sentidos e gestos habituais, permitindo abri-los a novos usos [3]. De igual modo, podemos também, a partir da Arte, imaginar novos futuros e especular além dos “cárceres do possível” [1], tecendo assim novas realidades.

O programa que concebemos é multifacetado e divide-se numa dimensão expositiva, que convoca artistas de todo o globo cujas práticas perscrutam a relação entre tecnologia e poder a partir de diversos meios e técnicas; em abordagens performativas, manifestadas por espetáculos de escalas e formatos variáveis, a grande maioria em estreia nacional; mas também na estimulação do pensamento, a partir de um vasto conjunto de conferências e debates, por algumas das mais relevantes figuras da atualidade neste campo.

A vontade de entender a tecnologia como matéria para reflexão crítica sobre o nosso tempo, mais do que um domínio de mero deslumbramento e potencial técnico, é o chão comum do nosso pensamento programático. Para McKenzie Wark, convidada do programa, o que os tempos pedem é um “hack coletivo que concretize um interesse de classe baseado num alinhamento de diferenças, não numa unidade coerciva”. [4]

Num momento em que parecemos caminhar no sentido inverso deste desígnio, aqui deixamos o nosso contributo para operar uma diferença no real, apontando à redefinição do possível.

 

Luís Fernandes

Diretor Artístico

Exposições

Poder – uma palavra de dimensões avassaladoras – é o ponto de partida desta exposição. Esta é uma palavra que desafia qualquer categorização fácil, resistindo a restrições e a definições fixas. Esta estende-se, desdobrando-se ao longo da história e através da própria essência do anseio.

A sua imensidão torna impossível qualquer tentativa de abordagem total. Em vez de pretender ser exaustiva, esta exposição coletiva abraça conscientemente a parcialidade, optando por abordar algumas das muitas facetas que definem este termo.

Esta exposição funciona através por intuição, em vez de hierarquia. As obras não procuram a profundidade de forma sistemática, antes permanecem deliberadamente próximas da superfície, onde os símbolos circulam rapidamente e a autoridade é exercida, imaginada ou distorcida. Esta superfície não é fútil. É carregada, instável e reveladora. Ao longo da exposição, a ironia funciona como uma válvula de escape. A sua presença aguça as arestas críticas, permitindo simultaneamente momentos de alívio sob tal intensidade.

Algumas das obras evocam fantasias infantis de autoridade projetadas para o futuro, com crianças a imaginarem-se como ditadores, onde a inocência se entrelaça com
a dominação de formas que são simultaneamente inquietantes e absurdas. Noutros casos, o poder é encenado através da ausência, em lugar de ser declarado. Os discursos ocorrem sem palavras, o silêncio total é utilizado para afirmar a autoridade, criando uma sensação de tensão, expectativa e submissão através do que é retido, em vez do que é expresso. Outras obras assumem registos mais sombrios. Guardas prisionais, juízes e administradores de centros de detenção são retratados como presenças monstruosas ou espectrais, ao mesmo tempo que fantasmas emergem em conversas profundas, refletindo acerca das estruturas de controlo invisíveis que moldam as sociedades contemporâneas. Estas figuras fantasmagóricas não assombram apenas o passado, mas permanecem no presente, ecoando a brutalidade não resolvida e as hierarquias duradouras.

Obras sonoras baseadas em gravações de campo de drones simbolizam regimes de vigilância e controlo sobre territórios disputados. Estes vestígios sonoros atuam de forma silenciosa, mas consistente, refletindo formas de poder que são simultaneamente predominantes e quase invisíveis. Poemas gravados nas paredes de edifícios históricos não oferecem qualquer ilusão de esperança. Recusam o consolo e reconhecem a linguagem como um espaço onde a violência é vista como irreversível.

A exposição sugere também formas menos visíveis de poder. A vida após a morte surge como uma extensão do controlo, onde os sistemas de crenças continuam a regular os corpos e o comportamento para além da morte. O controlo tecnológico é igualmente visível através do poder silencioso das palavras-passe, dos códigos de acesso e das identidades encriptadas, revelando como a autoridade é hoje frequentemente exercida através de sistemas invisíveis, em vez de força física.

Desde as fantasias infantis de dominação até à regulação imaginária da vida após a morte, a exposição traça a forma como o poder molda corpos e mentes dentro de um ciclo contínuo de existência, no qual a própria vida se desenrola sob as estruturas persistentes do controlo.

 

Joel Valabrega

Curadora do programa expositivo

Biblioteca INDEX

O INDEX 2026 propõe uma reflexão alargada sobre as múltiplas relações entre Poder, Arte e Tecnologia. Na base da definição do tema desta edição estão um conjunto de livros que abarcam diversos campos disciplinares, da autoria de várias figuras de relevo do pensamento contemporâneo. Da ciência política à arte, passando pela filosofia, tecnologia e teoria económica, nesta Biblioteca INDEX poderão consultar algumas das obras determinantes para a articulação do Poder à luz da Tecnologia nos nossos dias.

Entre 7 a 17 de maio, os visitantes poderão consultar, na sala zero do gnration, ensaios da autoria de Georgina Voss, Hito Steyerl, James Bridle, Karen Hao, Yves Citton e ainda Bruno Maçães, Franco Berardi ou Helen Hester, entre outros.